sábado, 7 de janeiro de 2012

Como surgiu a idéia de fazer o documentário

Quando começei a dar conta da novela Amor & revolução, no SBT , fazia pouco tempo que ela havia sido iniciada. Porém, devido ao horário de sua exibição (22.15hs) não lembrava de vê-la ou, quando acontecia, ela já havia começado. Por motivo vários quase sempre não assistia até ao final, o que me impedia de saber sobre os depoimentos ao final de cada capítulo.

De início, achei intrigante o fato de que o canal do senhor Sílvio Santos tenha topado fazer uma novela cujo tema seria o período mais obscuro da ditadura militar. Porém, quando vi o primeiro depoimento, após um dos capítulos, me programei para ver com mais frequência, pois fiquei muito surpreso com o que era dito (um homem relatava torturas a que teria sido submetido durante a ditadura). Já sabia sobre torturas praticadas na ditadura e pessoas desaparecidas, porém vendo aquela pessoa relatando o acontecido com ela, de forma muito dolorida, na televisão aberta a coisa ganhou outra dimensão.

Em conversa com outras pessoas de variadas classes socias sempre tocava no tema para saber como andava a repercussão da novela. Para minha surpresa pouca gente sabia da novela, menos ainda dos depoimentos. Resolvi verificar sua repercussão na imprensa escrita on-line (a imprensa televisiva não falava sobre o tema por questões da concorrência): no mais das vezes tudo o que se publicava restringia-se a comentários sobre o "primeiro beijo gay da teledramaturgia brasileira", pouco sobre o conteúdo (bem superficial), menos ainda sobre os depoimentos. Nelas, os comentários dos internautas, na grande maioria, focavam no beijo gay (entre duas mulheres), críticas a dramaturgia e a atuação dos autores. Pouquíssimas pessoas defendiam o autor e o diretor da novela, lembrando seu baixo orçamento, mais ainda a importância do tema, mesmo sem negar os problemas apontados.

Fazendo uma pesquisa na rede, foi aí que descobri que lá estavam todos os depoimentos veiculados até então. Ví-os quase todos, ficando muito impressionado e bastante emocionado com o de algumas mulheres. O fato de vê-los todos juntos de uma tacada só foi muito impactante (diferentemente de como se fazia na TV, que veiculava um por dia e sobre assuntos relacionados a resistência à ditadura - e não somente sobre as torturas que foram praticadas) : pensava neles quase todos os dias, várias vezes.

Por essa época viajava pelo Brasil para participar de alguns festivais de cinema e vídeo, apresentando o vídeo experimental "Uma noite em 68", realizado e produzido por mim, que coincidentemente, tratava do suposto "sumiço" de Vandré, após sua histórica apresentação num festival de música, em 68, com a canção "Prá não dizer que não falei das flores", tornada o hino da resistência à ditadura militar. Durante esses encontros sempre especulava sobre a novela e os depoimentos, percebendo então que havia muita desinformação sobre eles, mesmo por pessoas, em tese, que deveriam ser mais antenadas com assuntos relativos à meios de comunicação de massa(cinema, televisão etc).

Achei, ao final, que seria um desperdício enorme, que alguns daqueles depoimentos, ditos de uma forma tão dolorida, ficassem desconhecidos de tantos. Resolvi, então, reutilizá-los, de outra forma, fazendo com que eles chegassem ao conhecimento de mais pessoas. Minha motivação foi sentir em alguns daqueles depoimentos uma espécie de "grito desumano como uma maneira de ser escutado", para sair de um "silêncio atordoante", como diz a canção "Cálice", do Chico & do Gil, no filme cantada pela Pitty: "como é difícil acordar calado/ se na calada da noite eu me dano/ quero lançar um grito desumano/ que é uma maneira de ser escutado...".

Não me interessava gravar novas entrevistas com essas pessoas, para que elas repetissem, de novo, o que já tinham dito. Além de achar contraproducente, teria que ter recursos para tal, o que me obrigaria a ter que entrar em um edital para audiovidual, o qual demandaria muito tempo, além de não ter a certeza de que iria obtê-los. Cá comigo, tinha um pressentimento de que teria a concordância das depoentes para o que estava me propondo.

Quanto ao uso das imagens, as mesmas já estavam no youtube, ou seja, com livre acesso público, sem que houvesse, por parte da emissora que as gravou, nenhuma restrição a sua utilização naquele canal virtual. Além do que, seu uso não teria fins lucrativos, apenas o intuito de atingir um número maior de pessoas, devido a toda a problemática de divulgação da novela e dos depoimentos pela mídia escrita, atravessada que foi pela questão do beijo gay, já comentado no início desse texto.

Entretanto, achei producente esperar até o final de 2011, pois a novela ainda estava no início, podendo acontecer, de repente, uma reviravolta na repercussão da novela e, principalmente, dos depoimentos, o que tornaria sem efeito o meu objetivo. Infelizmente, nada mudou durante todo o ano de 2011. Ou mudou para pior, pois devido a baixa audiência, diziam que a novela começou a sofrer cortes e censura do próprio SBT, fazendo com que tivesse menos revolução (cenas de torturas) e mais amor (cenas de sexo).

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